QUAL O LUGAR DA EDUCAÇÃO NO BRASIL?

Falta tudo na escola pública, e tendo que lidar com todo tipo de adversidade, professores enfrentam o descaso dos governantes



Entrevistas por Everyday Brasil

Edição de texto Nelson Bortolin

Fotos Gabi Di Bella



Filipe de Freitas

Trabalhar nas escolas públicas de São Paulo é um desafio que cresce à medida que neoliberais e conservadores, pouco preocupados com a qualidade do ensino, se consolidam no poder na capital e no Estado.

Falta estrutura, falta reconhecimento, falta orientação, faltam profissionais de apoio para ajudar os professores a lidarem com problemas típicos dos jovens, principalmente em comunidades onde a violência é parte do cotidiano.

Por outro lado, sobram palpiteiros de plantão que não conhecem a realidade das escolas, que nunca estiveram em uma sala de aula. As queixas são comuns entre os professores com os quais conversamos para esta reportagem.

O ataque promovido por dois ex-alunos na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), dia 13 de março, contribuiu para piorar o ambiente escolar. Foram dez mortos entre funcionários, alunos e os atiradores. A tragédia levou medo e sentimento de desamparo à comunidade escolar. Professores têm pouca esperança no futuro.



Governo Privatista

“A mentalidade do governo é privatista, visando ao estado mínimo e congelamento dos gastos com equipamentos públicos. É um governo que culpa os servidores pela crise orçamentária e deturpa direitos como a estabilidade e a previdência, rotulados como privilégios”, afirma Mariana Zanetic, professora de artes das Escolas Municipais de Educação Fundamental (EMEFs) Solano Trindade e Conde Luiz Eduardo Matarazzo.

Para Adriana de Cássia Moreira, professora da EMEF José Dias da Silveira, os governos não dão importância à educação no que diz respeito à formação do indivíduo para uma sociedade democrática. Ela explica que, a partir de 1989, o País passou a investir em melhorias no ensino pautadas em ideias “republicanas” e de cidadania. Com a ascensão do presidente Jair Bolsonaro, esse projeto foi interrompido. O novo governo, diz a professora, não tem um programa e colocou pessoas totalmente despreparadas no Ministério da Educação.

Filipe de Freitas, professor de filosofia e coordenador da Escola Estadual Fernão Dias Paes, diz que falta reconhecimento do papel social da escola de formar o cidadão. “Os governos não dão valor às disciplinas que são fruto de estudos de milhares de anos. Esse trabalho não tem reconhecimento.”

Já José Carlos Araujo, professor de história da Escola Estadual Professor Mauro de Oliveira, ressalta o caráter marketeiro do governo de João Dória. “Recentemente, a gente tem discutido a questão da Base Nacional Comum Curricular e como isso vai refletir no cotidiano escolar. São realizados encontros, como se fossem consultas públicas, mas, na verdade, já existe uma proposta fechada e essa consulta pública é só protocolar. Me parece um espetáculo para demonstrar à população que algo está sendo feito”, declara.

“A política do governo estadual é de cortar investimentos, o que não é, exatamente, uma novidade. Em São Paulo, é assim há 30 anos”, conta Matheus Lima, professor de história para educação de jovens e adultos na Escola Estadual República do Peru. Em âmbito nacional, diz ele, a educação vem se alinhando à estadual, desde o governo do presidente Michel Temer (PMDB), e piora com Bolsonaro, que identifica as escolas como um local de doutrinação de esquerda. “Na verdade, o que eles pretendem é proibir ideias que sejam diferentes daquelas que eles acreditam e aplicar uma doutrina reacionária, conservadora. É conhecida como escola sem partido, mas na verdade é a escola de um partido só.”

“Especificamente sobre a política de São Paulo, são mais de 20 anos de PSDB e cada vez os números da educação são piores. Você vê a precarização do trabalho nas escolas”, aponta o agente de gestão Michel Dromed, da Escola Estadual Fernão Dias Paes. Ele diz que a escola onde trabalha é “privilegiada”, tem até laboratórios. “Mas não funcionam. Parece que é uma escolha governamental a precarização da escola pública.”



Mariana Zanetic

Matheus Lima

Fragilidade

“Eu já vivi coisas que uma mulher de 30 anos não viveu”. A frase, dita por uma aluna do ensino fundamental, fez a professora Adriana de Cássia Moreira parar para pensar na fragilidade das escolas públicas, principalmente das regiões menos assistidas da cidade. “Tudo acontece numa escola. Você recebe crianças e adolescentes com toda sorte de questões sociais, raciais e de saúde mental e não está preparada para lidar com isso”, afirma. Faltam profissionais como psicólogos e psicopedagogos para apoiarem os professores.

"Nós, educadores, ficamos quase que abandonados em nosso local de trabalho com as mais variadas situações de estudantes e com dificuldades não atendidas. Lidamos com conflitos de toda espécie e nos sentimos vulneráveis”, diz Mariana Zanetic.

José Carlos Araujo apresenta a mesma queixa. “O professor não recebe o respaldo suficiente e está adoecendo. Na ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público, há muitos professores”, conta.

O docente não recebe ajuda para tratar com adolescentes que muitas vezes se manifestam pela violência. “Os jovens às vezes são grutas impenetráveis. Para entendê-los, a gente tem de ter um dicionário próprio nas mãos.”

Araujo defende uma abordagem multidisciplinar para identificar o que passa na cabeça dos jovens. “A gente sabe que é uma fase muito complicada, de transição. Eles não são só cheios de hormônios, mas de questionamentos também. É um terreno muito propício para desenvolver intolerância.”

“Sem atendimento social, psicológico e psiquiátrico, a gente não vai caminhar bem. É muito aluno com depressão e muito bullying”, relata Michel Dromed.

Além de não poder contar com profissionais de apoio, os professores reclamam de ter que aguentar os palpiteiros. “São pessoas que não estiveram em sala de aula e se sentem respaldados para falar de escola pública. Gente que compartilha notícias sem fontes confiáveis. É o fim da picada”, reclama Araujo.

Para o professor Filipe Freitas, todo mundo virou especialista em educação. “Um economista enxerga a função da educação para o mercado de trabalho, mas o professor que está todo dia na escola não pode discutir a contribuição do trabalho dele.”



José Carlos Araujo

Suzano

13 de março e os dias seguintes foram de tristeza em todo o País. Nas escolas, alunos, professores e funcionários pararam para digerir o atentado de Suzano. Michel Dromed diz que sua escola ficou numa “tensão absurda”. “O clima estava muito pesado. Eu fiquei uns dias sem dormir e emagreci três quilos.” Um dia antes da tragédia, ele havia flagrado um aluno com arma branca.

Um colega de Dromed trabalhou em Suzano e conhecia uma das vítimas. “A gente se coloca no lugar. Não tem como, né? Uma das funcionárias que morreu tinha o mesmo cargo que eu exerço. Possivelmente passou pelas mesmas barras que eu passo, as mesmas ameaças que eu recebo.”

Filipe Freitas diz que trabalha com colegas que foram transferidos de Suzano e conheciam as vítimas. “Vi a tristeza nos rostos deles.” Para ele, há algo de errado na relação de alunos com a escola que precisa ser estudado. “Não atacam padaria, ninguém tem ódio de farmácia.”

Freitas tenta explicar seu sentimento: “A sensação é que roubaram da gente a liberdade, a juventude. E a gente não conseguiu evitar esse roubo coletivo”.

José Carlos Araujo conta que a Secretaria de Educação enviou uma espécie de passo a passo sobre como tratar a questão com os alunos, porém as atividades que acabaram sendo realizadas foram as propostas pelos jovens. “Eles se reuniram no pátio, fizeram poesias. Depois, todo mundo foi para sala com seus professores e foi dedicada uma aula para uma roda de conversa. Eles falaram da angústia que sentiam.”

O professor diz que ficou tenso nos primeiros dias após o atentando. Ele imaginava que pudesse haver uma epidemia de ataques como o de Suzano. “Eu fiquei tocado, sensibilizado pelo ocorrido. Faz parte do meu cotidiano, da minha realidade, da minha escola. É uma minoria, mas eu consigo identificar alunos com perfil praticamente idêntico ao dos meninos que realizaram os ataques.”

Na unidade onde trabalha a professora Mariana, foi realizada uma dinâmica de expressão corporal no dia da tragédia. “Várias crianças fizeram mímica apontando armas de fogo e se estatelando no chão”, conta. “A reflexão sobre tragédias, principalmente as ocorridas em contextos escolares, deve ser permeada por muita sensibilização nessa via da valorização da vida e direitos humanos”, ressalta.

Matheus Lima diz não ter se sentido ameaçado com a tragédia de Suzano. “Acho que isso poderia acontecer em outro lugar que eu frequento, no ônibus, na rua...”

Ele afirma que nas escolas mais periféricas, a violência é "naturalizada", de forma que a tragédia de Suzano foi encarada sem surpresa. “Não faz diferença ter sido dentro de uma escola. É mais alguém que morre. A violência é parte do cotidiano do Brasil, sobretudo nas periferias.”

O professor diz que, há menos de dois meses, uma policial que estava fazendo a ronda na saída de sua escola afirma ter ouvido um aluno chamá-la de 'coxinha'. Ela teria se enfurecido e entrado para identificar o jovem. Chamou reforço, jogou gás de pimenta em todo mundo, nos alunos, professores e funcionários. “Foram várias viaturas para a escola. Alunos foram parar no hospital com problemas respiratórios.”

De acordo com o professor, a policial foi afastada e está sendo processada. Os professores acompanham o caso. “Quem causou desordem e violência na escola foi uma policial.” Essa atitude, na opinião de Matheus, tem respaldo na Presidência da República. “Se tem presidente que nos ensina a apontar uma arma...”



Adriana de Cássia Moreira

Michel Dromed

O Futuro



Quando ingressou na carreira, em 2010, Filipe Freitas diz que já havia uma perspectiva ruim para os professores. “O sindicato dizia que, a partir de 2015, teríamos problemas sérios porque a atividade de professor deixaria de ser profissão.” Passaria a ser um emprego temporário para profissionais que ainda estão se formando em outras áreas.

Para ele, essa é a realidade hoje. “Teve uma universidade particular que fez propaganda chamando as pessoas para cursarem licenciatura de curta duração e dar aula para obter renda extra.”

De acordo com o professor, o futuro da educação depende de as pessoas que trabalham na área “se reconhecerem capazes de resolver os problemas que enfrentam no cotidiano”. “A educação que eu quero é a que tenha como protagonistas os estudantes, professores e funcionários das escolas.”

O professor Matheus Lima diz que a educação não está descolada da sociedade. “A escola pública vai mudar se a sociedade mudar. Se o Brasil continuar numa perspectiva política com governadores como Dória e presidentes como Bolsonaro o futuro da educação é tenebroso.”

Enquanto o foco do País estiver nas elites e no sistema financeiro, tanto a educação como os demais serviços públicos tendem a piorar. É o que diz a professora Mariana. “A educação só avançará em termos qualitativos com governos comprometidos com a cidadania, comprometidos com o seu povo.”

Quando questionado sobre o futuro, o professor Araujo diz preferir não ter esperança. “A gente vive numa era de pós-verdade. As pessoas não procuram mais saber sobre os fatos. Não importa se a fonte é duvidosa. Elas querem apenas receber informação que vai ao encontro do que elas pensam. Não espero mudar a cabeça das pessoas. Se eu conseguir fazer com que elas desenvolvam raciocínio crítico, será lucro.”

Ele acredita que a tendência é de haver muita privatização na área. “Tudo será voltado para a questão econômica. Cada vez mais o aluno terá de se formar logo porque é um custo para o governo. Então, o ensino tende a se tornar fast food.”

Michel Dromed também não vê boas perspectivas. “Não vejo luz, não vejo políticas públicas voltadas à melhoria da educação básica. Acho que a gente está caminhando para trás.”




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