BRUMADINHO: UM ANO DE IMPUNIDADE


O crime da Vale em Brumadinho, em 2019, quatro anos após rompimento de barragem em Mariana, escancarou Minas Gerais como uma bomba-relógio



Texto por Isis Medeiros


Fotos: Alexandre Pires, Ana Carolina Fernandes, Cadu Rolim, Danilo Verpa, Duda Xavier, Fábio Nascimento, Leo Couri, Gabi Di Bella, Gabriela Biló, Isis Medeiros, Larissa Helena, Leandro Taques, Lincon Zarbietti, Lucas Bois, Lucas Hallel, Marcia Foletto, Ricardo Stuckert, Tulio Thomé.



No próximo dia 25 de janeiro, o crime sócio ambiental da mineradora VALE em Brumadinho completa um ano. O violento rompimento da barragem de rejeitos da empresa líder mundial na produção do minério de ferro no mundo entrou para um recorde de mortes no estado de Minas Gerais e já foi considerado o maior “acidente” de trabalho da história do Brasil, e que poderá se tornar o segundo acidente industrial mais mortífero do século 21 em todo o mundo.


Mesmo conhecendo o risco de instabilidade que corria a barragem do Córrego do Feijão, a mineradora e seus responsáveis permitiram que 12,7 milhões de m³ de rejeitos de mineração, acumulados durante 40 anos e administrados desde 2003 pela VALE, se rompesse, invadisse inúmeras cidades, destruísse a vida de comunidades e centenas de pessoas e seus territórios. Segundo levantamento da defesa civil, foram 270 vítimas fatais, 77% homens, a maioria trabalhadores da empresa. Além deles, dois nascituros, Lorenzo e Maria Elisa, totalizando, assim, 272 mortes, mas a mineradora e o próprio governo brasileiro não levam em conta essas duas vidas no processo de reconhecimento e indenização às vítimas. Onze pessoas ainda não foram encontradas em meio aos escombros que continuam sendo vasculhados pelo corpo de bombeiros, desde o rompimento da barragem.


Diante das mortes e incalculáveis impactos ao Rio Paraopeba, que compõe a Bacia do Rio São Francisco, um dos mais importantes cursos d'água do Brasil e da América do Sul, não há ainda ninguém responsabilizado, punido ou preso. A maior parte das famílias atingidas pelo rio, solo e ar contaminados, em todo percurso do rio, ainda segue sem indenização e sem reparações um ano após o crime.


Minas Gerais é o estado brasileiro com a maior atividade minerária do Brasil, e segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), com informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), o país possui aproximadamente 24.092 barragens, 790 barragens de rejeitos de minérios (maior parte de pequeno porte, em propriedades rurais) sendo Minas Gerais o estado brasileiro que possui a maior concentração - são 357. Das 790 barragens de minério, mais de 300 “não foram classificadas em relação ao seu risco de rompimento e ao potencial dano que poderia causar ao ambiente e à sociedade”. A ANM, responsável pela fiscalização, tem apenas 35 fiscais capacitados para atuar nas barragens de rejeitos de minérios, mas, segundo estudo, apenas 3% delas são vistoriadas.


O rompimento de barragens e a impunidade dessas multinacionais em países subdesenvolvidos provam de forma dolorosa que este modelo de desenvolvimento não funciona para o interesse popular, não há desenvolvimento social com um modelo de mineração predatória. Em 2018, a mineradora lucrou 21 bilhões em todo mundo, e segundo pesquisa do Sindicato Metabase, só em 2019, a VALE lucrou 954% em cima de cada trabalhador. Isso significa que um trabalhador de base da mineradora gasta apenas 54 minutos para produzir o valor de seu salário mensal. Esses crimes provocados pelo modelo predatório de mineração, vem demonstrando no território brasileiro, sua principal base de matéria prima, a prioridade pelas altas taxas de lucro em detrimento da qualidade de vida da população local.


A imprensa nacional e internacional noticiou enormemente o fato. O assunto atraiu curiosos, fotógrafos, cinegrafistas e artistas que passaram a representar a lama como forma de protesto diante da injustiça e impunidade dos responsáveis envolvidos. O meio acadêmico brasileiro, ONGs, iniciativas privadas, movimentos sociais de luta pelos atingidos por barragens vem denunciando diariamente o abuso de poder da empresa que permanece fazendo acordos do seu interesse com a justiça.


Apesar da tragédia ter sido muito noticiada, pouco se fala da vida íntima das comunidades, das dificuldades da aldeia indígena Pataxó, da violação de direitos das seis comunidades quilombolas no território de Brumadinho, ribeirinhos, pescadores, agricultores que perderam sua forma de trabalho e sobrevivência e, especialmente, sobre a questão das mulheres no front de luta reclamando direitos, impedindo os abusos da empresa e exigindo justiça para seus filhos mortos. Em todos os territórios as populações estão sendo obrigadas a lutar para reestruturar suas vidas.


A população atingida das comunidades adjacentes às mineradoras, em geral pobres e rurais, denunciaram alguns problemas, entre eles: falta de água, desequilíbrio na fauna e na flora, doenças respiratórias, gentrificação e favelização, aumento dos níveis de violência, prostituição e conflitos sociais, riscos de novos rompimentos de barragens, explosões constantes e expulsão de minérios no ar, assoreamento das nascentes e rios, contaminações do solo, do ar e das águas.


Na semana que completa um ano do massacre que deixou milhares de pessoas desoladas no Brasil e no mundo, mais de 350 atingidos e atingidas percorrem cerca de 300 quilômetros em caravana para denunciar o crime da Vale em Brumadinho e na bacia do Rio Paraopeba. A caminhada faz parte da jornada de luta “A Vale Destrói, o Povo Constrói” e começou em Belo Horizonte. Teve primeiro ato no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), onde os atingidos denunciaram a paralisação nos auxílios emergenciais, a falta de assessoria técnica nas cidades e comunidades atingidas, a impunidade da empresa e a ausência de políticas públicas que garantam os direitos dessas populações. A manifestação em Belo Horizonte encerrou em frente a Agência Nacional de Mineração onde os atingidos denunciaram o não cumprimento e a falta de fiscalização da Política Nacional de Segurança de barragens.


A marcha passa também por outras cidades atingidas pela tragédia, como Pompéu, Juatuba, Betim, Citrolândia e São Joaquim de Bicas, até chegar em Brumadinho e Córrego do Feijão, no dia 25, quando completa um ano da tragédia. No final de 2019 foi aprovado pela Câmara Federal o Projeto de Lei 2788\19, que institui a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens – PNAB, para garantir os direitos dos atingidos a reparação integral, indenização e auxilio emergencial no caso de desastres. O PL ainda precisa ser aprovado no Senado e regulamentado. É neste contexto que segue a marcha.



Exposição Fotográfica - Convocatória Minas que me Feres


Após a reincidência de rompimento de barragem de mineração com o crime da Vale em Brumadinho, Minas Gerais se revelou uma bomba-relógio, com grande quantidade de barragens em risco de colapso. As comunidades atingidas convivem com a dor, a contaminação e o descaso das empresas, e são vítimas do medo. Mas vão à luta para garantir seus direitos e defender a vida.


Para marcar os quatro anos do crime da Vale/Samarco/BHP em Mariana e um ano do crime da Vale em Brumadinho, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) promove a "Jornada de Luta dos Atingidos: A Vale Destrói, O Povo Constrói”. Nesse contexto, convocou fotógrafos e fotógrafas de todo o Brasil para a exposição fotográfica “Minas que me feres: dos crimes à resistência”. Fruto do trabalho de muitos profissionais junto ao movimento e da elaboração coletiva, a exposição, que irá percorrer várias cidades do país, traz um panorama fotográfico e audiovisual do impacto dos crimes no meio ambiente e na vida do povo atingido, assim como os caminhos para a resistência.


Abaixo alguns dos trabalhos que foram selecionados para a exposição:


Foto: Leo Couri
Foto: Gabriela Biló
Foto: Lincon Zarbietti
Foto: Danilo Verpa
Foto: Tulio Thomé
Foto: Duda Xavier
Foto: Leandro Taques
Foto: Ana Carolina Fernandes
Foto: Larissa Helena
Foto: Lucas Bois
Foto: Cadu Rolim
Foto: Fábio Nascimento
Foto: Marcia Folleto
Foto: Isis Medeiros
Foto: Ricardo Stuckert
Foto: Gabi Di Bella
Foto: Alexandre Pires
Foto: Lucas Hallel


Fotógrafos e fotógrafas que compartilharam seus trabalhos e foram selecionados:


Alex Fisberg, Alexandre Guzsanche, Amanda Coimbra Duda Xavier, Ana Carolina Fernandes, Ana Gaspar, André Soler, Augusto Gomes, Bárbara Dias, Beatriz Ribeiro, Brum Bello, Cadu Rolim, Carne Seca, Danilo Verpa, Douglas Mansur, Elza Cohen, Fábia Karklin, Fábio Nascimento, Filipe Chaves, Flora Passos, Gabriel Lordello, Gabriel Brandão, Gabriela Biló, Gabriela Di Bella, Guilherme Weimann, Isis Medeiros, Ismael dos Anjos, Joice Valverde, Joka Madruga, Larissa Helena, Larissa Pinto, Leandro Couri, Leandro Raggi, Leandro Taques, Leo Otero, Lincon Zarbietti, Lucas Bois, Lucas Hallel, Luiz Baltar, Marcia Folleto, Mateus Gomes, Mayra Azzi, Nilmar Lage, Paul Cabanis Xande Pires, Paula Tereza, Ricardo Stuckert, Rubens Venâncio, Samuel Chahoud, Tainara Torres, Thais Gobbo, Thiago Sobral, Tulio Thomé, Valéria Amorim do Carmo e Vitor Jubini.


Curadoria:

Isis Medeiros - Marilene Ribeiro - Tibério França - Marcelo Aguilar


Organização:

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)




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